
Com mesas dedicadas às desigualdades ambientais e raciais, bem como à relação entre as periferias e suas cidades, começou nesta terça-feira (9) o 2º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre o Urbano. O encontro, em formato híbrido, tem atividades on-line e presenciais no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB), no Distrito Federal.
Até quinta-feira (11), grupos de trabalho, conferências, mostras e debates sobre o universo urbano acontecem tanto em plataformas digitais quanto nas salas da universidade, reunindo pesquisadoras e pesquisadores do Brasil e do exterior em torno dos dilemas das cidades.
Nesta terça-feira, 13 Grupos de Trabalho (GTs) deram início à programação, com discussões sobre temas como periferias, interseccionalidade, efeitos da crise climática nas cidades, políticas de ocupação e mercantilização urbana.
“Essas áreas ‘marginais’ urbanas, por um lado, são frutos das dinâmicas do capitalismo. Uma favela é um lugar com pouco valor imobiliário à estrutura da cidade. É intrigante que essas áreas tenham sido vistas sempre sob o prisma do problema, de algo que deve ser resolvido, se a própria organização social as produziu”, notou Maria Gabriela Hita, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que esteve à frente do GT A centralidade das periferias para um novo urbanismo, ao lado de John Ernest Gledhill, do Departamento de Antropologia da Universidade de Manchester, na Inglaterra.
“De outro lado, as pessoas que vivem nas periferias produzem soluções próprias à cidade quando produzem soluções para as próprias periferias”, continuou.
No GT 10, Desastres, racismo ambiental e o urbano no neoextrativismo, os trabalhos se concentraram em análises de acidentes ambientais recentes. Mais de uma apresentação trouxe dados do MapBiomas que apontam para o crescimento de áreas urbanizadas em regiões de altos declives. Em 1985, elas ocupavam 14 mil hectares do território do país; em 2024, já chegavam a 43,4 mil. Esse avanço territorial, notadamente ligado a novas favelas, embora não só, ocorreu à revelia do próprio crescimento das cidades, que aumentaram 2,5 vezes de tamanho no mesmo período.
“O que ficou evidente nas investigações desse nosso GT é que a grande maioria dos desastres ambientais no Brasil poderia ser prevenida”, analisa Estefania Momm de Melo, do Observatório das Metrópoles, que coordenou o grupo de trabalho ao lado de Karine Gonçalves, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). “Mais do que isso, os trabalhos estão dando conta de disputas territoriais — e ambientais — envolvendo atores com acessos desiguais a recursos”.
W.E.B. Du Bois e a primeira sociologia urbana
O evento foi aberto pela antropóloga Cristina Patriota de Moura, professora da UnB e coordenadora do grupo de pesquisa Dimensões da Vida Urbana. Sua conferência trouxe aportes sobre a pesquisa que Moura desenvolve a respeito dos estudos urbanos do historiador estadunidense W.E.B. Du Bois (1868–1963). Primeiro homem negro a receber o título de Doutor pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em 1895, Du Bois tem sido recuperado, nas últimas décadas, como pioneiro das investigações sobre os efeitos sociais da segregação racial urbana.
Para a antropóloga, porém, esse não foi o único pioneirismo dele. “É possível dizer que o primeiro laboratório de sociologia empírica dos EUA foi o que ele montou na Universidade de Atlanta [na Georgia], entre o fim do século 19 e o início do 20, para estudar as diferenças do que ele chamava de ‘linhas de cor’”, apontou.
Patriota traduziu para o português, pela Autêntica, em 2023, o clássico The Philadelphia Negro, publicado originalmente em 1899 como resultado de uma intensa investigação de campo empreendida por Du Bois na capital do estado da Pensilvânia. Segundo ela, a tradução dialoga com o movimento acadêmico de reposicionar Du Bois como um dos cânones da sociologia.
“Nos Estados Unidos, isso está acontecendo com mais força e, aqui, ele entra na demanda cada vez mais forte das pesquisas por referências negras. De fato, não tem mais como entender as dinâmicas de cidades como as nossas — e as dos EUA — sem esse tipo de aporte”.
Mesa de abertura do 2º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre o Urbano. Foto: Laboratório Social.
Na conferência, Patriota lembrou como a sociologia de Du Bois forneceu um novo leque de explicações para a segregação racial na sociedade estadunidense, muitas delas ainda contemporâneas, como o debate sobre racismo ambiental. Um de seus estudos contestou, por exemplo, os argumentos oficiais para explicar a queda da população negra nas cidades dos Estados Unidos registrada pelo censo de 1890.
“Na lógica comum, que estava presente nos relatórios do censo, se dizia que era algo natural: o negro, por ser mais fraco, acabaria morrendo mesmo”, relatou ela.
“Mas Du Bois contestou essa visão, mostrando como a mortalidade era alta pelas conexões causais sociais: havia uma migração negra do campo à cidade intensa, e essas pessoas tinham que pagar aluguéis altos para morar em casas insalubres. Com isso, estavam mais sujeitas a contrair tuberculose — que é uma doença que se relaciona com as condições ambientais. Ele fez isso ao longo de toda a vida dele”.
Desigualdades raciais em foco

Para o cientista político Thiago Trindade, professor da Universidade de Brasília (UnB) e membro do comitê científico do evento desde a sua concepção, a segunda edição da conferência reforça como muitos dos dilemas sociais mais relevantes do país atravessam a vida nas cidades. “O urbano é um pilar da democracia, porque todos os elementos que a compõem — elementos do atraso brasileiro, autoritarismo, desigualdades, etc. — estão no mundo urbano”.
“O aspecto racial, que, para mim, é central na interpretação do Brasil, por exemplo, tem nas cidades um desenho muito claro de segregação. Nós nunca tivemos um regime de apartheid, como na África do Sul, mas os nossos municípios foram profundamente pensados a partir da distância entre negros e brancos”, diz.
É aí que, para Trindade, o Congresso sobre o Urbano da UnB oferece uma de suas principais contribuições. “O elemento racial nunca ocupou a centralidade dos nossos estudos urbanos. Por quê?”, questiona. “Porque a intelectualidade brasileira se acostumou a pensar a desigualdade racial como desigualdade de classe”, hipotetiza.
Não é só no Brasil: na conferência sobre W.E.B. Du Bois, na abertura do congresso, Cristina Patriota mostrou como The Philadelphia Negro, embora tenha sido escrito com base em um trabalho de campo de fôlego — com cerca de 5 mil entrevistas e o escopo estatístico de diversas bases distintas disponíveis à época — ficou esquecido por quase um século.
“Quando esse livro foi recuperado, há alguns anos, não tinha sequer os originais na Universidade de Atlanta, que encomendou o estudo”, conta ela.
Programação de quarta-feira
Nesta quarta-feira (10), 14 Grupos de Trabalho dão continuidade ao congresso. Entre os destaques estão o GT Ação climática urbana e governança multinível, coordenado pelos advogados Alexandre Fontenelle-Weber, pesquisador da USP, e Mariana Chiesa, professora dos cursos de Direito do Insper e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo; e o GT 4, Casa e cidade: entrelaçamentos urbanos, que discute relações entre o espaço privado e o espaço público, sob coordenação de Luiz Henrique Prado Campos, da Fundação João Pinheiro, e Maria Maciel, da UFRJ.
O dia também será marcado por duas mesas-redondas: a primeira, às 16h, sobre transformações e políticas para periferias; a segunda, às 19h, sobre racismo ambiental.
A programação completa está disponível aqui.
